quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Sexta-feira, 27



Querido Diário Otário,

          A Angelina sentou perto de mim e da Isabella hoje, no intervalo. Eu estava comendo um sanduíche de queijo e presunto que eu tinha preparado pro lanche, mas não tinha mais queijo lá em casa, e eu me senti culpada por estar sendo tão má com o Fedido ultimamente então dei a última fatia de presunto pra ele. Acho que dava para dizer que era um sanduíche de margarina, mas eu me esqueci de passar margarina no pão.


(Aliás, Fedido e eu somos amigos de novo. Acho que ele pensou que comer o trabalho tinha nos deixado quites. Pensando bem, acho que ele até que pegou LEVE.)


          Enfim, voltando à Angelina (lembra a Angelina?). Acredite se quiser, entre uma mordida e outra no meu pão, eu cheguei a dizer:
          - Obrigada por me salvar com o trabalho, ontem.
          Eu não quis ser gentil. Mas meus pais fizeram lavagem cerebral em mim e eu acabo sendo gentil de vez em quando, mesmo contra meus instintos.
          Aí, ela sorriu pra mim. E não foi um sorriso olha-como-eu-sou-perfeita-com-meus-dentes-brancos-e-hálito-puro. Foi um sorriso normal. E ela até disse:
           - A gente devia fazer alguma coisa qualquer dia. Ir ao cinema, sei lá. E você tinha que me ensinar como fazer isso com o cabelo – ela disse isso apontando pra minha cabeça – porque eu nunca consigo fazer nada de legal com o meu.


          Só o que eu sei, Diário Otário, é que no minuto seguinte a Bruntford estava me aplicando uma manobra de Heimlich, tentando fazer com que eu cuspisse um pedaço de pão que ficou entalado na minha goela quando a Angelina elogiou meu cabelo. Depois de alguns apertões, lá veio o pão, e eu vi que o Pinsetti estava ali do lado, rindo. É claro que ele já tinha algum apelido maravilhoso na ponta da língua e todos estavam esperando para ver qual seria, quando a Angelina empurrou ele pro lado e disse:
          - Ah, cala a boca, SPINHETTI.


          SPINHETTI. Era a obra-prima dos apelidos. Tinha a ver com o nome dele, era grosseiro porque falava das espinhas e todo mundo estava na cantina ouvindo no momento em que foi usado pela primeira vez. Apesar de ele estar totalmente aniquilado, ainda deu para ver o respeito estampado na cara do Mário.


          A Angelina, que todos pensavam que fosse boa e pura, tinha finalmente mostrado a maldade que eu e a Isabella sabíamos que estava ali.


          Claro, ela só foi má com o Spinhetti (nossa, já até esqueci qual o nome dele) e, sim, ela meio que salvou minha pele de novo por impedir que ele me desse um apelido, mas, poxa, pelo menos agora o mundo sabe que ela não é um anjo total e perfeito.


          Eu sei o que você está pensando, Diário Otário: dane-se! Use aquela minha famosa sequência de golpes um-dois-um! Afinal, eu tenho a ficha dela para mostrar ao mundo. Posso acabar com ela de uma vez por todas.


          O problema é que eu não tenho mais a ficha. Ontem, eu decidi não ler a ficha da Angelina. Quando saí da enfermeira, fui até a sala do diretor e coloquei a ficha de volta no arquivo.
          Além do mais, é a Angelina, será MESMO que ela podia ser tão má assim?


          A boca da Isabella voltou ao normal poucas horas depois do lanche. Parecia um milagre. Os lábios passaram de dois pedacinhos de charque amassados e sangrentos para duas glamourosas e reluzentes fatias de mamão.
          Foi o bolo de carne. A carne misteriosa com que ele é feito tem algum tipo de incrível poder regenerativo sobre os lábios da Isabella. E, agora, esse é o novo sabor de gloss dela. Ela colocou um pouco de bolinho dentro de um tubinho velho e anda com ele por aí. Eu sei. É nojento. Mas o cheiro é melhor que Chocomenta.


          Mas essa foi apenas a segunda coisa mais estranha que aconteceu no universo hoje.
          Mais tarde, na escola, a Angelina caminhou em minha direção.
          - Esqueci de agradecer você – ela disse.
          - Pelo quê?
          - Por assumir a culpa naquela história do bolo de carne da Bruntford.

          E foi nesse momento, quando ela disse aquilo, que ACONTECEU. Eu senti o universo inteiro ranger, estalar e movimentar-se de leve, e só o que sei é que os terríveis poderes angelínicos estavam atuando sobre mim. Eu senti que talvez estivesse começando a GOSTAR DA ANGELINA CONTRA MINHA VONTADE.


          Eu disse para ela que não tinha problema. Eu também sempre quis fazer aquilo.
          - Não, não. Foi muito importante para mim – ela disse. – Você não sabe como eu estaria ferrada se me pegassem. Se você pudesse ver a minha ficha, teria uma idéia. Uma coisinha a mais e eu seria expulsa, aí o Lucas seria todo seu, e eu NÃO vou deixar que isso aconteça.
          Aí, ela sorriu e foi embora.


          E eu fiquei parada ali, Diário Otário, mais ou menos como um beagle de olhinhos pretos vendo alguém remexer seus lixos e tralhas, achando que era uma coisa que na verdade não era. Fiquei paralisada por uma montanha de sentimentos de carinho e ódio misturados, como uma das receitas da minha mãe.


          Talvez, as pessoas sejam como o bolo de carne: remédio eficaz e veneno mortal.
          Fiquei pensando, quando o Mário Pinsetti passou por mim se nem me olhar na cara, se um dia eu encontraria a sabedoria do Fedido e conseguiria descobrir exatamente qual é a quantidade de justiça que deveria ser aplicada nesse caso, que seria equivalente a comer um trabalho da Angelina qualquer dia e dizer que estamos quites.












           Muito obrigada por me ouvir, Diário Otário.
Jamie Kelly

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