Querido Diário Otário,
A Angelina sentou perto de mim e da
Isabella hoje, no intervalo. Eu estava comendo um sanduíche de queijo e
presunto que eu tinha preparado pro lanche, mas não tinha mais queijo lá em
casa, e eu me senti culpada por estar sendo tão má com o Fedido ultimamente então
dei a última fatia de presunto pra ele. Acho que dava para dizer que era um
sanduíche de margarina, mas eu me esqueci de passar margarina no pão.
(Aliás, Fedido e eu somos
amigos de novo. Acho que ele pensou que comer o trabalho tinha nos deixado quites.
Pensando bem, acho que ele até que pegou LEVE.)
Enfim, voltando à Angelina (lembra a
Angelina?). Acredite se quiser, entre uma mordida e outra no meu pão, eu
cheguei a dizer:
- Obrigada por me salvar com o
trabalho, ontem.
Eu não quis ser gentil. Mas meus pais fizeram
lavagem cerebral em mim e eu acabo sendo gentil de vez em quando, mesmo contra
meus instintos.
Aí, ela sorriu pra mim. E não foi um
sorriso olha-como-eu-sou-perfeita-com-meus-dentes-brancos-e-hálito-puro. Foi um
sorriso normal. E ela até disse:
- A gente devia fazer alguma coisa
qualquer dia. Ir ao cinema, sei lá. E você tinha que me ensinar como fazer isso
com o cabelo – ela disse isso apontando pra minha cabeça – porque eu nunca
consigo fazer nada de legal com o meu.
Só o que eu sei, Diário Otário, é que
no minuto seguinte a Bruntford estava me aplicando uma manobra de Heimlich,
tentando fazer com que eu cuspisse um pedaço de pão que ficou entalado na minha
goela quando a Angelina elogiou meu cabelo. Depois de alguns apertões, lá veio
o pão, e eu vi que o Pinsetti estava ali do lado, rindo. É claro que ele já
tinha algum apelido maravilhoso na ponta da língua e todos estavam esperando
para ver qual seria, quando a Angelina empurrou ele pro lado e disse:
- Ah, cala a boca, SPINHETTI.
SPINHETTI. Era a obra-prima dos
apelidos. Tinha a ver com o nome dele, era grosseiro porque falava das espinhas
e todo mundo estava na cantina ouvindo no momento em que foi usado pela
primeira vez. Apesar de ele estar totalmente aniquilado, ainda deu para ver o
respeito estampado na cara do Mário.
A Angelina, que todos pensavam que
fosse boa e pura, tinha finalmente mostrado a maldade que eu e a Isabella sabíamos
que estava ali.
Claro, ela só foi má com o Spinhetti
(nossa, já até esqueci qual o nome dele) e, sim, ela meio que salvou minha pele
de novo por impedir que ele me desse um apelido, mas, poxa, pelo menos agora o
mundo sabe que ela não é um anjo total e perfeito.
Eu sei o que você está pensando,
Diário Otário: dane-se! Use aquela minha famosa sequência de golpes um-dois-um!
Afinal, eu tenho a ficha dela para mostrar ao mundo. Posso acabar com ela de
uma vez por todas.
O problema é que eu não tenho mais a
ficha. Ontem, eu decidi não ler a ficha da Angelina. Quando saí da enfermeira,
fui até a sala do diretor e coloquei a ficha de volta no arquivo.
Além do mais, é a Angelina, será MESMO que ela podia ser tão má assim?
A boca da Isabella voltou ao normal
poucas horas depois do lanche. Parecia um milagre. Os lábios passaram de dois
pedacinhos de charque amassados e sangrentos para duas glamourosas e reluzentes
fatias de mamão.
Foi o bolo de carne. A carne
misteriosa com que ele é feito tem algum tipo de incrível poder regenerativo
sobre os lábios da Isabella. E, agora, esse é o novo sabor de gloss dela. Ela colocou
um pouco de bolinho dentro de um tubinho velho e anda com ele por aí. Eu sei. É
nojento. Mas o cheiro é melhor que Chocomenta.
Mas essa foi apenas a segunda coisa
mais estranha que aconteceu no universo hoje.
Mais tarde, na escola, a Angelina
caminhou em minha direção.
- Esqueci de agradecer você – ela disse.
- Pelo quê?
- Por assumir a culpa naquela
história do bolo de carne da Bruntford.
E foi nesse momento, quando ela disse
aquilo, que ACONTECEU. Eu senti o
universo inteiro ranger, estalar e movimentar-se de leve, e só o que sei é que
os terríveis poderes angelínicos estavam atuando sobre mim. Eu senti que talvez
estivesse começando a GOSTAR DA ANGELINA
CONTRA MINHA VONTADE.
Eu disse para ela que não tinha
problema. Eu também sempre quis fazer aquilo.
- Não, não. Foi muito importante para
mim – ela disse. – Você não sabe como eu estaria ferrada se me pegassem. Se você
pudesse ver a minha ficha, teria uma idéia. Uma coisinha a mais e eu seria
expulsa, aí o Lucas seria todo seu, e eu NÃO
vou deixar que isso aconteça.
Aí, ela sorriu e foi embora.
E eu fiquei parada ali, Diário
Otário, mais ou menos como um beagle de olhinhos pretos vendo alguém remexer
seus lixos e tralhas, achando que era uma coisa que na verdade não era. Fiquei paralisada
por uma montanha de sentimentos de carinho e ódio misturados, como uma das
receitas da minha mãe.
Talvez, as pessoas sejam como o bolo
de carne: remédio eficaz e veneno mortal.
Fiquei pensando, quando o Mário
Pinsetti passou por mim se nem me olhar na cara, se um dia eu encontraria a
sabedoria do Fedido e conseguiria descobrir exatamente qual é a quantidade de
justiça que deveria ser aplicada nesse caso, que seria equivalente a comer um
trabalho da Angelina qualquer dia e dizer que estamos quites.
Muito obrigada por me ouvir, Diário Otário.
Jamie Kelly
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