Querido Diário Otário,
O Fedido comeu meu trabalho de
mitologia. Bem, pelo menos agora eu sei o que ele esteve planejando. Ele estava
esperando que eu terminasse o trabalho. E sabe por que eu tenho certeza de que
foi vingança? Ele só comeu as palavras. Sério: as margens do papel ficaram no
pratinho dele, como bordinhas de pizza.
Tive que fazer meu lanche hoje de
manhã, já que estou proibida de comer no colégio. Só tinha um restinho de
geléia de morango para colocar no sanduíche, e o cachorro sarnento lambeu a
geléia do pão enquanto eu fui à geladeira pegar uma caixinha de suco. Acho que
ele só fez isso porque está com gosto de mitologia na boca – e deve ser um
gosto horrível – então nem fiquei muito brava com ele. Minha mãe terminou de
empacotar o lanche e colocou ele na minha mochila.
Então, lá estava eu, Diário Otário,
sendo deixada no colégio já sabendo que ia ganhar um zero do sr. Evans. Pô, eu
não PODIA dizer para ele que o
cachorro tinha comido o trabalho. Tenho que admitir: aquele beaglezinho do mal
me ferrou bonito.
Enquanto eu estava entrando no
colégio, minha tia e minha mãe se encontraram lá fora e estavam preparando a
transferência do Dudu de um carro pro outro quando, de alguma forma, ele
escapou.
Eu só sei disso porque, enquanto dava
meus passos no corredor da morte em direção à aula do sr. Evans, um pequeno
selvagem grudento passou correndo por mim carregando uma mochilinha dos robôs
ninja, seguido pela minha histérica tia. Eu estava quase agarrando o Dudu
quando vi o Lucas e rapidamente tive que decidir se iria ajudar um membro da
família em apuros ou se ia parecer legal para um cara que mal sabe que eu
existo.
- Oi, Lucas! – foi o que eu disse,
enquanto o Dudu virou no corredor e sumiu de vista, seguido pela minha tia, que
já estava começando a chorar.
Entrei na aula do sr. Evans
plenamente consciente de que seria a primeira a apresentar o trabalho. Ele me
mandou levantar e apresentar lá na frente da sala.
Mal eu comecei a dizer que não tinha
feito, o Dudu entrou correndo na sala. A cara dele estava imensa, a língua
supergordona, então não dava pra entender nada do que ele dizia. Foi aí que eu
me toquei que o Fedido não tinha lambido a geléia do pão – quem lambeu foi o
Dudu! E, pelo jeito, ele é mesmo alérgico a morangos. Ele estava tão inchado
que parecia um desenho dele MESMO
alguém tinha feito num balão.
O Dudu enxergou a minha mochila no
mesmo momento em que eu percebi que ele estava usando seus poderes
sobrenaturais de localização de mechas de cabelo, então nós dois corremos até a
mochila ao mesmo tempo. Mas o bebê-demônio foi mais rápido que eu e conseguiu
enfiar sua cabeçona redonda dentro da mochila antes que eu pudesse segurá-lo.
Quando consegui tirá-lo dali, ele estava com o cabelo da Angelina grudado
naquela cara gosmenta, como se fosse uma barba. Com aquelas roupas sujas, a
barba e aquela cabeçona inchada, ele nem parecia humano.
O fato de eu estar agarrando o Dudu
pelo pescoço enquanto ele chutava e socava o ar também não devia criar nenhuma
impressão de humanidade nele.
O sr. Evans ficou de pé, muito
vermelho, com aquelas veia enorme latejando na testa e perguntou:
- Você conhece essa... criança,
Jamie?
Foi aí que eu me dei conta de que a
próxima coisa que saísse da minha boca definiria meu destino para sempre. Eu
seria conhecida como a garota com o primo doido ou pior: dava para ver que o
Mário Pinsetti já estava anotando algumas idéias de apelido num papel.
Miserável. Fiquei com vontade de atirá-lo pela janela do segundo andar.
Foi aí que aconteceu. O Dudu tinha
jogado o saquinho do lanche para fora da mochila, e o que vem rolando e pára
bem diante de mim? Um PÊSSEGUO.
Minha mãe colocou um pêssego na mochila.
A Angelina levantou-se. Esse era o
momento. A oportunidade perfeita. Ela tinha esperado o momento ideal, e ele
tinha chegado.
A Angelina foi até a frente da sala e
parou ao meu lado. Ela soltou um daqueles sorrisos angelínicos perfeitos e
disse:
- Sr. Evans, Jamie e eu fizemos nosso
trabalho juntas. Nosso tema são os duendes. E este é o nosso auxílio visual –
disse ela, apontando para o Dudu.
Ela não me chamou de Pesseguilda. Ela
não fez nada de mau. A Angelina esta ME
AJUDANDO. O sr. Evans e toda a sala, inclusive o Lucas, pareciam estar sob
o impacto gigante da voz de Angelina, que é a mais bela de todas as vozes
mortais, mas e daí?
Era eu quem estava na reta. Então,
entrei no jogo. Nós duas começamos a inventar e falar, e de vez em quando o
Dudu rosnava, e a sala toda caía na gargalhada, até que eu acho que ele começou
a gostar. Logo percebi que aquele era o melhor trabalho que eu já tinha
apresentado na vida, e olhe que eu estava até gostando de apresentá-lo. Assim
que terminamos, minha tia apareceu na porta para levar o Dudu embora, e eu e a Angelina
ganhamos um 10 e uma salva de palmas. (A Isabella teve que se segurar muito
para não rir. A boca dela está tão seca que qualquer vestígio de sorriso parte
tudo e os lábios dela viram salsichas vermelhas.)
Quando voltei para a minha mesa,
fiquei pensando: POR QUE É QUE A
ANGELINA TINHA ME AJUDANDO? Será que é porque levei a culpa no crime do
bolinho de carne? Será que agora nós somos amigas? Pensar nessa possibilidade
me deixou com dor de barriga. Aliás, eu fiquei TÃO mal que o sr. Evans me mandou para a enfermeira.
Quando me abaixei para fechar minha
mala, vi a mochilinha dos robôs ninja caída ali do lado e, dentro dela, a ficha
da Angelina. Passei a mão nela e corri para a enfermeira.
A enfermeira fez o que ela sempre faz.
Não importa que você esteja sofrendo um ataque do coração, que uma de suas
pernas tenha sido arrancada por um urso ou que tenha um machado enfiado na sua
cara, ela sempre manda fazer a mesma coisa:
TOMAR UM CHAZINHO E DEITAR NA MACA.
Enquanto eu estava deitada lá, fiquei
olhando para a pastinha da ficha da Angelina. Antes de abrir, pensei em tudo o
que podia ter ali: bruxaria, sequestro, banimento dos jogos de futebol do
colégio por ficar piscando para os atacantes...
Ou talvez ela esteja cumprindo a pena
de ser uma pessoa de quem as pessoas gostam, apesar de lá no fundo todos
tentaram odiá-la com todas as forças.
Só o que restava fazer era abrir a
pastinha, ler a ficha e espalhar pelo mundo seus terríveis segredos.
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