quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Quinta-feira, 26


Querido Diário Otário,

          O Fedido comeu meu trabalho de mitologia. Bem, pelo menos agora eu sei o que ele esteve planejando. Ele estava esperando que eu terminasse o trabalho. E sabe por que eu tenho certeza de que foi vingança? Ele só comeu as palavras. Sério: as margens do papel ficaram no pratinho dele, como bordinhas de pizza.


          Tive que fazer meu lanche hoje de manhã, já que estou proibida de comer no colégio. Só tinha um restinho de geléia de morango para colocar no sanduíche, e o cachorro sarnento lambeu a geléia do pão enquanto eu fui à geladeira pegar uma caixinha de suco. Acho que ele só fez isso porque está com gosto de mitologia na boca – e deve ser um gosto horrível – então nem fiquei muito brava com ele. Minha mãe terminou de empacotar o lanche e colocou ele na minha mochila.


          Então, lá estava eu, Diário Otário, sendo deixada no colégio já sabendo que ia ganhar um zero do sr. Evans. Pô, eu não PODIA dizer para ele que o cachorro tinha comido o trabalho. Tenho que admitir: aquele beaglezinho do mal me ferrou bonito.
               Enquanto eu estava entrando no colégio, minha tia e minha mãe se encontraram lá fora e estavam preparando a transferência do Dudu de um carro pro outro quando, de alguma forma, ele escapou.
          Eu só sei disso porque, enquanto dava meus passos no corredor da morte em direção à aula do sr. Evans, um pequeno selvagem grudento passou correndo por mim carregando uma mochilinha dos robôs ninja, seguido pela minha histérica tia. Eu estava quase agarrando o Dudu quando vi o Lucas e rapidamente tive que decidir se iria ajudar um membro da família em apuros ou se ia parecer legal para um cara que mal sabe que eu existo.

          - Oi, Lucas! – foi o que eu disse, enquanto o Dudu virou no corredor e sumiu de vista, seguido pela minha tia, que já estava começando a chorar.
          Entrei na aula do sr. Evans plenamente consciente de que seria a primeira a apresentar o trabalho. Ele me mandou levantar e apresentar lá na frente da sala.
           Mal eu comecei a dizer que não tinha feito, o Dudu entrou correndo na sala. A cara dele estava imensa, a língua supergordona, então não dava pra entender nada do que ele dizia. Foi aí que eu me toquei que o Fedido não tinha lambido a geléia do pão – quem lambeu foi o Dudu! E, pelo jeito, ele é mesmo alérgico a morangos. Ele estava tão inchado que parecia um desenho dele MESMO alguém tinha feito num balão.


          O Dudu enxergou a minha mochila no mesmo momento em que eu percebi que ele estava usando seus poderes sobrenaturais de localização de mechas de cabelo, então nós dois corremos até a mochila ao mesmo tempo. Mas o bebê-demônio foi mais rápido que eu e conseguiu enfiar sua cabeçona redonda dentro da mochila antes que eu pudesse segurá-lo. Quando consegui tirá-lo dali, ele estava com o cabelo da Angelina grudado naquela cara gosmenta, como se fosse uma barba. Com aquelas roupas sujas, a barba e aquela cabeçona inchada, ele nem parecia humano.


          O fato de eu estar agarrando o Dudu pelo pescoço enquanto ele chutava e socava o ar também não devia criar nenhuma impressão de humanidade nele.
          O sr. Evans ficou de pé, muito vermelho, com aquelas veia enorme latejando na testa e perguntou:
          - Você conhece essa... criança, Jamie?
          Foi aí que eu me dei conta de que a próxima coisa que saísse da minha boca definiria meu destino para sempre. Eu seria conhecida como a garota com o primo doido ou pior: dava para ver que o Mário Pinsetti já estava anotando algumas idéias de apelido num papel. Miserável. Fiquei com vontade de atirá-lo pela janela do segundo andar.


          Foi aí que aconteceu. O Dudu tinha jogado o saquinho do lanche para fora da mochila, e o que vem rolando e pára bem diante de mim? Um PÊSSEGUO. Minha mãe colocou um pêssego na mochila.
          A Angelina levantou-se. Esse era o momento. A oportunidade perfeita. Ela tinha esperado o momento ideal, e ele tinha chegado.


          A Angelina foi até a frente da sala e parou ao meu lado. Ela soltou um daqueles sorrisos angelínicos perfeitos e disse:
          - Sr. Evans, Jamie e eu fizemos nosso trabalho juntas. Nosso tema são os duendes. E este é o nosso auxílio visual – disse ela, apontando para o Dudu.


          Ela não me chamou de Pesseguilda. Ela não fez nada de mau. A Angelina esta ME AJUDANDO. O sr. Evans e toda a sala, inclusive o Lucas, pareciam estar sob o impacto gigante da voz de Angelina, que é a mais bela de todas as vozes mortais, mas e daí?


          Era eu quem estava na reta. Então, entrei no jogo. Nós duas começamos a inventar e falar, e de vez em quando o Dudu rosnava, e a sala toda caía na gargalhada, até que eu acho que ele começou a gostar. Logo percebi que aquele era o melhor trabalho que eu já tinha apresentado na vida, e olhe que eu estava até gostando de apresentá-lo. Assim que terminamos, minha tia apareceu na porta para levar o Dudu embora, e eu e a Angelina ganhamos um 10 e uma salva de palmas. (A Isabella teve que se segurar muito para não rir. A boca dela está tão seca que qualquer vestígio de sorriso parte tudo e os lábios dela viram salsichas vermelhas.)


          Quando voltei para a minha mesa, fiquei pensando: POR QUE É QUE A ANGELINA TINHA ME AJUDANDO? Será que é porque levei a culpa no crime do bolinho de carne? Será que agora nós somos amigas? Pensar nessa possibilidade me deixou com dor de barriga. Aliás, eu fiquei TÃO mal que o sr. Evans me mandou para a enfermeira.


          Quando me abaixei para fechar minha mala, vi a mochilinha dos robôs ninja caída ali do lado e, dentro dela, a ficha da Angelina. Passei a mão nela e corri para a enfermeira.


          A enfermeira fez o que ela sempre faz. Não importa que você esteja sofrendo um ataque do coração, que uma de suas pernas tenha sido arrancada por um urso ou que tenha um machado enfiado na sua cara, ela sempre manda fazer a mesma coisa: TOMAR UM CHAZINHO E DEITAR NA MACA.


          Enquanto eu estava deitada lá, fiquei olhando para a pastinha da ficha da Angelina. Antes de abrir, pensei em tudo o que podia ter ali: bruxaria, sequestro, banimento dos jogos de futebol do colégio por ficar piscando para os atacantes...
          Ou talvez ela esteja cumprindo a pena de ser uma pessoa de quem as pessoas gostam, apesar de lá no fundo todos tentaram odiá-la com todas as forças.
          Só o que restava fazer era abrir a pastinha, ler a ficha e espalhar pelo mundo seus terríveis segredos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário